Impessoal e Transmissível

Humor e devaneios pessoais

Ramalho Ortigão: “Farpas Escolhidas”


 Esta é uma obra que nos oferece um olhar clínico sobre a sociedade   portuguesa de final do século XIX, e em cujo retrato encontramos uma extrema coincidência, em vários pontos, com a sociedade portuguesa dos dias de hoje. Ramalho Ortigão ressalta, nomeadamente, a subserviência secular de Portugal a países como a Inglaterra.
Atente-se neste trecho:
Por outro lado nada que se compare à nossa credulidade, à nossa boa fé, à nossa estima, à nossa admiração perante a individualidade inglesa à qual nenhuns serviços devemos.”
Numa epístola ao seu amigo John denuncia as manias portuguesas de querer impressionar o estrangeiro, usando para tal estratagemas demasiado artificiais, negando o que é genuinamente identificativo da portugalidade. Exemplo disso é o que Ortigão classifica como os gastos ostentatórios da coroa portuguesa, aquando da visita do príncipe de Gales, ao nosso país, em 1876. Deliciosa também a sua dissertação sobre os males do casamento e o porquê do aumento dos divórcios em Portugal. Na génese desta taxa, está a forma como se namorava naquele tempo:
Porque enfim o que ele pretende é deslumbrá-la, comovê-la, seduzi-la. Ora não será confessando-lhe francamente que morre pela perna de carneiro com alho, que tem um fraco pelo queijo saloio, que sofre uma timpanite e um calo de olho de perdiz (…) pobre diabo, sujo, poltrão, guloso obscuro, com dívidas, com caspa, com joelheiras nas calças, com uma nódoa no colete, com um vício oculto (…) que ele mostrará merecer inteiramente os epítetos que ela lhe dirige – meu anjo, meu Deus, meu tudo!
E é neste fingimento, nesta impostura, neste logro, nesta baixa idolatria recíproca, de estilo safado (…) que esses dois entes desgraçados, que hão de ser um dia marido e mulher, se iniciam para a grande luta prática, para a grave e austera vida doméstica.
Quinze dias, oito dias, às vezes dois dias apenas de intimidade conjugal bastam para dar aos dois uma desilusão horrenda”

O interesse dos temas em reflexão por este grande companheiro de letras de Eça de Queiroz sucedem-se. Uma visão pragmática, despretenciosa, nua e crua da sociedade de então, como o atesta a sua dissertação sobre touros e touradas, ao oferecer um ponto de vista escorreito, sem grandes rodeios em defesa da arte taurina. Pejada de sentido se a quisermos ver à luz dos dias de hoje.
Tem-se sede de ar livre, de sol, de movimento e de bulha. Vivem-se dias consecutivos como uma simples máquina obediente e passiva. É preciso viver-se, enfim, algumas horas como um nobre animal bravo e solto. Porque sem essa expansão da animalidade não se é homem. (…) o povo entusiasma-se com todas as naturezas ingénuas e saudáveis, com os belos espectáculos da força. Ele prefere a uma dama que desmaia de histérica ou a um clarinete que delira no sentimentalismo musical… um rapagão musculoso que se deita à cabeça de um boi e o afocinha no chão, agarrado pelos cornos”.

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Março 24, 2007 - Posted by | Leituras SA

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