Impessoal e Transmissível

Humor e devaneios pessoais

“Será amor ou dependência”

Esta foi uma das minhas leituras mais recentes na Secção de Leitura Especial da Biblioteca Nacional. Agora que a psicologia das relações se tornou moda, livros como este abundam no mercado.  O principal guru é o conhecido Dr. Phill, mas muitos outros psicólogos se dedicam a esmiuçar as diferenças entre sexos e a sugerir caminhos para a conquista do “homem ideal” / “mulher perfeita”. Brenda Scheeffer é mais um desses nomes. Para a escritora a chave do sucesso está em não criar dependências nos relacionamentos, o que não implica necessariamente um não envolvimento. O livro aconselha relações mais saudáveis, abertas, inteligentes, sem estigmas e paranóias. Os conselhos serão realmente eficazes ou tudo não passa de estratégia comercial? Cabe a quem lê decidir. De qualquer das formas, e na minha opinião, Scheeffer gasta cerca de 230 páginas num assunto que caberia em menos de metade. O assunto se bem que atraente para as grandes massas acaba por ser demasiado mastigado. Outro pormenor: a autora atribui a muitos dos problemas das relações possíveis traumas de infância. O que é pouco original e fastiento.

Julho 28, 2007 Posted by | Leituras SA | 4 comentários

“Gostastes”

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Ora aqui está um livro de consumo rápido e interessante e que nos proporciona bons momentos de humor. O seu autor é João   Viegas. Criativo publicitário e um homem da rádio.

“Gostastes” é uma compilação de vários pequenos contos que retratam a realidade nacional e internacional de uma forma satírica, crítica e inteligente. Vou deixar aqui alguns exemplos:

“Bibi, Lili, Bibá, Tété, Isaurinha, Kapinha, Nuxa, Mituxa, Cinha, Pimpinha, Nico, Mico, Deco, Féfé… Digam-me lá se isto não é mesmo o Portugal dos pequeninos?”

“Foi feito um baralho de cartas, Com as caras dos principais agentes dizem eles, do terrorismo internacional. Os ases sem trocadilho, dos atentados, das bombas e das encomendas armadilhadas, os reis sem gota de sangue azul, dos sequestros, desvios de aviões e ataques suicidas. Damas e Valetes, dez, noves, oitos, seis, cinco e quatros. E por aí fora. Até aos elementos menos perigosos. Um árabe que atirou um tijolo à janela do vizinho. Dois iraquianos que roubaram a caixa das esmolas numa sinagoga em Paris. Uma turca que andou de metropolitano sem pagar bilhete. Todas as noites o mega presidente olha a cara dos capturados e murmura entre dentes: “Damn it, só me saem é duques!”

Os apresentadores dos concursos de televisão adoram mostrar que sabem as respostas às perguntas que fazem. Uns são do estilo: “Esta é facíl, facílima.” E logo: “Quantos quadros pintou Picasso durante o período cubista?”
Outros são do tipo paizinho: “Então não sabia esta? Claro que era o Nabucodonosor… Mau, mau.”
Mas os piores são os que se engasgam logo na pergunta: “Qual a especialização de um Orto… Otoringo… Otorinolargo.. perdão…” Para depois concluírem: “o quê não sabe?!”

Junho 27, 2007 Posted by | Leituras SA | 7 comentários

“A Varanda de Julieta”

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Todas as semanas tenho uma leitura que fica registada em áudio na Biblioteca Nacional. É especialmente dirigida aos leitores invisuais .  Durante dois meses tive a incumbência de ler a interessante obra: ” A Varanda de Julieta” do escritor e antigo ministro do Ultramar de Fontes Pereira de Melo,  Manuel Pinheiro Chagas.
O Português ainda um pouco arcaico e antigo não esmorece face aos relatos de seis histórias de amor. A começar pela primeira :”Varanda de Julieta”, inspirada na célebre peça de Shakespeare “Romeu e Julieta”. Na versão portuguesa, os enamorados não se suicidam, simplesmente Julieta acaba por casar com outro homem.
Pontuadas pela desdita, infortúnio e revezes da vida as demais histórias também não acabam bem. São elas “Romance da Tia Isabel”; “Tempestades da Aldeia”; “A Visão do Precipício”, “A Esposa de Felisberto”; “Amor de Cigana”.
O amor é sempre um tema intemporal e que resiste às modas, porque não aproveitar para uma leitura de como este era em finais do século XIX: com mortes, desmaios, desvarios. No fundo os ingredientes estão lá todos

Abril 26, 2007 Posted by | Leituras SA | 3 comentários

Ramalho Ortigão: “Farpas Escolhidas”


 Esta é uma obra que nos oferece um olhar clínico sobre a sociedade   portuguesa de final do século XIX, e em cujo retrato encontramos uma extrema coincidência, em vários pontos, com a sociedade portuguesa dos dias de hoje. Ramalho Ortigão ressalta, nomeadamente, a subserviência secular de Portugal a países como a Inglaterra.
Atente-se neste trecho:
Por outro lado nada que se compare à nossa credulidade, à nossa boa fé, à nossa estima, à nossa admiração perante a individualidade inglesa à qual nenhuns serviços devemos.”
Numa epístola ao seu amigo John denuncia as manias portuguesas de querer impressionar o estrangeiro, usando para tal estratagemas demasiado artificiais, negando o que é genuinamente identificativo da portugalidade. Exemplo disso é o que Ortigão classifica como os gastos ostentatórios da coroa portuguesa, aquando da visita do príncipe de Gales, ao nosso país, em 1876. Deliciosa também a sua dissertação sobre os males do casamento e o porquê do aumento dos divórcios em Portugal. Na génese desta taxa, está a forma como se namorava naquele tempo:
Porque enfim o que ele pretende é deslumbrá-la, comovê-la, seduzi-la. Ora não será confessando-lhe francamente que morre pela perna de carneiro com alho, que tem um fraco pelo queijo saloio, que sofre uma timpanite e um calo de olho de perdiz (…) pobre diabo, sujo, poltrão, guloso obscuro, com dívidas, com caspa, com joelheiras nas calças, com uma nódoa no colete, com um vício oculto (…) que ele mostrará merecer inteiramente os epítetos que ela lhe dirige – meu anjo, meu Deus, meu tudo!
E é neste fingimento, nesta impostura, neste logro, nesta baixa idolatria recíproca, de estilo safado (…) que esses dois entes desgraçados, que hão de ser um dia marido e mulher, se iniciam para a grande luta prática, para a grave e austera vida doméstica.
Quinze dias, oito dias, às vezes dois dias apenas de intimidade conjugal bastam para dar aos dois uma desilusão horrenda”

O interesse dos temas em reflexão por este grande companheiro de letras de Eça de Queiroz sucedem-se. Uma visão pragmática, despretenciosa, nua e crua da sociedade de então, como o atesta a sua dissertação sobre touros e touradas, ao oferecer um ponto de vista escorreito, sem grandes rodeios em defesa da arte taurina. Pejada de sentido se a quisermos ver à luz dos dias de hoje.
Tem-se sede de ar livre, de sol, de movimento e de bulha. Vivem-se dias consecutivos como uma simples máquina obediente e passiva. É preciso viver-se, enfim, algumas horas como um nobre animal bravo e solto. Porque sem essa expansão da animalidade não se é homem. (…) o povo entusiasma-se com todas as naturezas ingénuas e saudáveis, com os belos espectáculos da força. Ele prefere a uma dama que desmaia de histérica ou a um clarinete que delira no sentimentalismo musical… um rapagão musculoso que se deita à cabeça de um boi e o afocinha no chão, agarrado pelos cornos”.

Março 24, 2007 Posted by | Leituras SA | Deixe um comentário

Pedro Mexia: “Prova de Vida (diários 2004-2006)”

Pedro Mexia é um dos mais profícuos escritores da blogosfera portuguesa, cujos textos  se pode disfrutar em: www.estadocivil.blogspot.com
Os textos são geralmente curtos, recheados de aforismos, com uma dose de ironia, humor e intimismo que apaixonam o leitor muito rapidamente.
Pedro Mexia fala de literatura, de cinema, teatro, televisão, mas também de pessoas: das suas fraquezas, segredos, e defeitos. Com Pedro Mexia a humanidade é atroz, sombria e sempre disposta a “lixar o próximo”. Do outro lado está o herói, uma personagem que não sabemos se fantasiada ou se se trata do próprio autor. Ele é o solteirão mal sucedido nos amores, que se auto-flagela a cada momento, que disserta sobre as mulheres bonitas que não pode ter mas que gostaria, das negas que já levou, na abstinência sexual a que está condenado.
O maior desafio é mesmo perceber até que ponto esta personagem é ou não autobiográfica, o certo é que nos diverte com uma elegância espirituosa.
De qualquer forma ficam algumas pistas:

(…) A humilhação de uns serve como divertimento de outros. E o divertimento nunca é injusto.” in “Estado Civil”, Janeiro de 2007

Quem lê o que escrevo, sabe que nunca tive medo do ridículo. Tenho muito medo de ser ridículo. Mas, uma vez ridículo, não tenho medo nenhum de escrever sobre isso

O autor editou recentemente “Prova de Vida (diários 2004-2006”, uma compilação dos textos que tem espalhado pela blogosfera.

Março 14, 2007 Posted by | Leituras SA | Deixe um comentário